Março e Abril de 2006
por tanto (a)mar
queria navegar um poema que abraçasse o tempo com mãos de encantar e desamarrasse veleiro enamorado de cais
naufragar o poema em amor
que despisse nossas rimas onde se perde o mar e cobrisse ressacas em nossos versos banais
mas é tanto (a)mar
meu poema mareia em pássaros nórdicos ... e segue mudo
indissolúvel
filete de sangue
sacrilégio descendo corroendo e crescendo no silêncio dos nove meses
(a mãe é filha do pai)
curto-circuito nos sonhos da menina
norte de minas
comendo chão vai o pai vai a mãe vão os filhos dentro deles vai a foice dilacerando o estômago
(enquanto me lambuzo de chocolate e consternação)
Deserto
face mergulhada em correntezas do passado abro frestas na memória:
mil e uma tempestades dos hormônios adolescentes sonharam no corpo as areias do deserto e seu Sheik de Agadir
das lembranças emerge o tempo e sua razão: só sente a aridez quem nunca se fez oásis
transição
caiu no inferno de dante sem memory card sem senha de saída e sem beatriz
mas dedos invisíveis surgiram-lhe da vontade: [re]esculpiu-se
rompendo a imobilidade desenhou o dia e dançou com a manhã a valsa da esperança
fez-se asas e ganhou o infinito
virou vida
amar: advérbio de modo
inevitável perambular sem rótulo à beira do pop escutando blues
inevitável perder-se no rock do amor inventado cazuzando azuis
inevitável dissociar sem dor o eu do tu
[não permanecer casmurro sonhando capitu]
desconstrução
por voto vencido emudeci o coração
(virei-o para o avesso da fotografia de jobim)
mas ao som de saudosismo desafinei a votação: desconstruí eu e você
e em verbos da paixão pluralizei nós dois
(e agora?) agora explode, coração!
postscriptum
os versos não se aquietaram
acasalando vidas e sonhos apenas repousam no papel
porque poesia são botões: desabrocha com as manhãs em libertadoras metáforas
novos versos farão o amanhã
libertando raízes e pétalas redesenharão o papel com pincéis, cores e jardins
os versos jamais se aquietarão
demência
meu sonho pobre-insolente não se contenta em me habitar
quer transformar katrina em rock e rita lee em unanimidade tocar harpa no quinto dos infernos e jorrar cio na porta do céu
quer entrar no oco do mundo com as sandálias do pescador e plantar girassóis da rússia no mapa da faixa de gaza
meu sonho pobre-demente se alimenta de esperança no meu (re)despertar
em pele de serpente
plantou prego na palma da minha mão e com olhar de cristal transparente fez morada sob e sobre minha pele
num circuladô de caetano mastigou triturou comeu meu coração e me deixou com esperança entre pernas
cansei: chega de cento e uma tentativas
queroadrenalinaquerobocaquerogostoquerogozo
quero espalhar veneno em outra pele e tatuar de tesão outra canção
(quer saber? vá cameliar outra dama!)
FREE
diante dos olhos paira o azul
por entre os dedos escapa o branco
de prazer em prazer o livre-arbítrio faz do futuro a fogueira da inquisição
orquestração
uma embriaguez na chegada da noite
(vem do alaranjado uma insinuação de vermelho)
na imaginação corpos fazem dueto
enquanto mãos dedilham cordas afinadas a língua em tom maior faz o solo do orgasmo
Solidão in red
na parede aveludando a tinta o pincel agiganta agressivas cores
(no coração: explosão no corpo: desejo)
em imagens concêntricas o pincel traça o caminho do gozo
(e o vermelho explode nas paredes da solidão)
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