Arte: Val - http://pensar_e_um_ato.blig.ig.com.br/



















Junho de 2006

 

in picture

sobre a mesa
o passado amarrota o dia

à janela
olhar ensaia vôo cego

sons de saudosismo
desafinam o presente

o amanhã
vira pássaro de asas feridas

 

dia dos namorados

como se fosse barco à deriva
navega em lembranças
escutando silêncio de gestos antigos:

bocas apaixonadas tecendo beijos em palavras
mãos de carinho borboleteando desejo de ser

o relógio rouba-lhe a memória
e joga-lhe o tempo de agora:

dona de casa com velas arriadas
velejando rotina de salaquartocozinha
toalhas brancas pratos e beijos de plástico

quebra pratos
cospe plástico
abre a cortina

é dia dos namorados
presenteia-se com sua menina

 

pas de deux

na dança das nuvens
te recebo galáctico
navegando minha boca

como se fossem eternos
nossos beijos elétricos

nos passos do desejo
te recebo fálico
avermelhando meus sinais

como se fosse bêbado
o cálice do teu vinho

e ao som de blues
embriagamos o amor
eletrizando nossa taça

 

de mim em ti

sei de tuas palavras
devassando minhas trilhas
e do meu desejo:
delícia em tua boca

sei de desesperar esperança
e inventar chão em alto mar

sei de ti
vento em velas soltas
sei de mim
barco beijando cais

 

inventário

fui cortada pelo vento
dos pedaços
fiz Mulher

a vida reinventou-se

mudou-me pelos sentidos:
mais olhar
menos gestos
mais ouvidos

(o vento era fruta de vez)

 

gênesis

do fogo
brotou a essência
 
arrancadas do calendário
folhas engoliram auroras
milhas desenharam-se metros
e anos costuraram rupturas

do homem
rompeu a irracionalidade
 
aflorado em caverna primitiva
o sabre atravessou a solidão
e num sonho Led Zeppeliniano
afogou-se em lúbricas erupções

do verbo
encorpou-se o vinho
 
cristais saudaram a rubra fonte
sob ancestral noite missipiana
comungaram-se no mesmo cálice:
a carne, o espírito e as chamas

(e a carne volta a ser verbo
e perde-se entre as chamas)


um quase bucolismo

laranjeiras
goiabeiras
mangueiras
e passarinhos
em onomatopéia outonal

frutas no chão
adubando vaidades

nos olhos compridos
do garoto
o catecismo:
a terra é de deus

em algaravia de zumbidos
a cerca vai desmentindo:
é
 do
   diabo
         do
           dono


 



 @




Maio de 2006

 

reescrita

em execução doída
sepultei no vento
o coração

(fingi esquecer
a história vencida)

num redemoinho
de forças contrárias
línguas refizeram
a melodia 

e a carne
em urgente tirania
reescreveu
a letra do desejo 

em execução sumária
atravessei os acordes
do coração

(renasci paixão)

 

Lembrando Adélia Prado

hoje quero pausa
na sofisticação da linguagem

esquecer alexandrinos e Baudelaire
esconder rebeldia rimbaldiana
apagar traços e pretensões

hoje quero cantar o amor
olhando peixes sendo descamados
descalçar pés da longa estrada
e embalar nos braços
o silêncio acompanhado

hoje
quero apenas ser noiva da vida

 

sujeitos femininos

chegaram separadas
sementes trazidas no vento

mergulharam nas areias
e brotaram
fazendo-me terra fértil

   umas trazem brisa fresca
   das manhãs de primavera

   outras a luminosidade
   de girassóis ao meio-dia

   muitas o sopro tranqüilo
   das tardes murmurentas

diariamente
dou-me vários braços

mas nunca terei abraço suficiente
para agradecer
a significância que deram aos sujeitos:
mãe-amiga-mana

 

verbo de (d)ação

chega como vento de outono
espalhando folhas adjetivantes

(superficialmente)

por detrás das palavras
denuncia-se:
é chuva fertilizante

derrama-se pela terra
faz brotar semente
indiscriminadamente

e entre exclamações
planta significantes
nos rebentos relutantes

sai como brisa de verão
transformando pretensos
em instigantes colóquios

(definitivamente)

 

sorte bandida

tento todos os browsers
um me olha de lado
outro diz au revoir

tento telefone
só metal no labirinto

ando de lá para cá
calma sobe as paredes da sala
testando barata de kafka

(corpo fica pequeno
para sede de mar nordestino)

manhã  vira tarde encardida
recolho asas
para a próxima oferta do dia

(e a ironia do espelho
diz que nasci virada para a lua)

 

amor rima com dor?

amor nem tem que rimar
amor tem é que assaltar
e fustigar
e salivar
e inundar

e plantar oásis
em dunas do coração

 

fuga

pedem para eu ir
quero voltar

ou nem isso

quero fugir das amarras de onipresença
e embarcar olhos na polissemia da língua

enrabichar coração numa laçada sem nó
e embrulhar a vontade num rio de preguiça

só não quero ter
que ir
que vir
que ser

 

sabático

o chão me fugiu

rocei a língua no eterno
e escondi entre dentes
o medo da partida

acordei invertida
na saudade de futuro

vaidade escorrendo
na areia da ampulheta
virei zumbidos no ouvido
e tique-taque de relógio

ressignifiquei a vida

(indestrutíveis
são apenas os meus sonhos)


 



 @




Março e Abril de 2006

 

por tanto (a)mar

queria navegar um poema
 
que abraçasse o tempo
com mãos de encantar
e desamarrasse veleiro enamorado de cais

naufragar o poema em amor

que despisse nossas rimas
onde se perde o mar
e cobrisse ressacas em nossos versos banais

mas é tanto (a)mar

meu poema mareia em pássaros nórdicos
                                              ... e segue mudo

 

indissolúvel


filete de sangue

sacrilégio
descendo
corroendo e crescendo
no silêncio dos nove meses

(a mãe é filha do pai)

curto-circuito
nos sonhos da menina


norte de minas

comendo chão
vai o pai
vai a mãe
vão os filhos
 
dentro deles
vai a foice
dilacerando o estômago

(enquanto me lambuzo
de chocolate e consternação)


Deserto

face mergulhada
em correntezas do passado
abro frestas na memória:

mil e uma tempestades
dos hormônios adolescentes
sonharam no corpo
as areias do deserto
e seu Sheik de Agadir

das lembranças
emerge o tempo e sua razão:
só sente a aridez
quem nunca se fez oásis


transição

caiu no inferno de dante
sem memory card
sem senha de saída
e sem beatriz

mas dedos invisíveis
surgiram-lhe da vontade:
[re]esculpiu-se

rompendo a imobilidade
desenhou o dia
e dançou com a manhã
a valsa da esperança

fez-se asas
e ganhou o infinito

virou vida

 

amar: advérbio de modo

inevitável
perambular sem rótulo
à beira do pop
escutando blues

inevitável
perder-se no rock
do amor inventado
cazuzando azuis

inevitável
dissociar sem dor
o eu do tu

[não permanecer casmurro
sonhando capitu]

 

 desconstrução

por voto vencido
emudeci o coração

(virei-o para o avesso
da fotografia de jobim)

mas ao som de saudosismo
desafinei a votação:
desconstruí eu e você

e em verbos da paixão pluralizei nós dois

(e agora?)
agora explode, coração!

 

postscriptum

os versos não se aquietaram

acasalando vidas e sonhos
apenas repousam no papel

porque poesia são botões:
desabrocha com as manhãs
em libertadoras metáforas

novos versos farão o amanhã

libertando raízes e pétalas
redesenharão o papel
com pincéis, cores e jardins

os versos jamais se aquietarão

 

demência

meu sonho
pobre-insolente
não se contenta em me habitar

quer transformar katrina em rock
e rita lee em unanimidade
tocar harpa no quinto dos infernos
e jorrar cio na porta do céu

quer entrar no oco do mundo
com as sandálias do pescador
e plantar girassóis da rússia
no mapa da faixa de gaza

meu sonho
pobre-demente
se alimenta de esperança no meu (re)despertar

 

em pele de serpente

plantou prego na palma da minha mão
e com olhar de cristal transparente
fez morada sob e sobre minha pele

num circuladô de caetano
mastigou triturou comeu meu coração
e me deixou com esperança entre pernas

cansei:
chega de cento e uma tentativas

queroadrenalinaquerobocaquerogostoquerogozo

quero espalhar veneno em outra pele
e tatuar de tesão outra canção

(quer saber? vá cameliar outra dama!)

 

FREE

diante dos olhos
paira o azul

por entre os dedos
escapa o branco

de prazer em prazer
o livre-arbítrio
faz do futuro
a fogueira da inquisição

 

orquestração

uma embriaguez
na chegada da noite

(vem do alaranjado
uma insinuação de vermelho)

na imaginação
corpos fazem dueto

enquanto mãos
dedilham cordas afinadas
a língua em tom maior
faz o solo do orgasmo

 

Solidão in red

na parede
aveludando a tinta
o pincel
agiganta agressivas
cores

(no coração:
                 explosão
no corpo:
             desejo)

em imagens concêntricas
o pincel
traça o caminho
do gozo

(e o vermelho explode
nas paredes da solidão)



 @




Fevereiro de 2006

 

anti-poema da lua

da lua
quero fases
gerundiando frases

(a sombra
tréguas iluminando
a foice
peles acariciando
o inteiro
entre pernas desmanchando
e o gozo
as distâncias minguando)

quero brilho corrompendo tempo e espaço
e raios fazendo cócegas no teu silêncio
 

(re)traída 

a memória
queima em espiral:

nicotina
numa pele que não foi minha
esfumaçou
o amor que não aconteceu.

no cinzeiro
restos de sonhos
(re)traem-se na eterna pergunta:
por quê?

 

"de lua e estrelas"

costurando palavras
em raios de lua
borbulha estrelas

(errante
brinca de pisca-pisca
entre nós
e nossos laços)

e no frenesi das madrugadas
entrelaça sonhos

vaza amor

 

ânua

escoltado por abelhas africanas
o ano se despede

das intenções melíferas ficam:
-uma pedra no caminho
-um poema inacabado
-um barco furado
-um presente no escuro

e todos os sonhos de navegantes à deriva

pergunto aos jornais
sobre esperança
respondem-me com serena insensibilidade:
a pedra no telhado de vidro,
a revolta das vísceras,
o enjôo dos dias,
a imparcialidade do relógio
em bocas de lixo e beijos na boca

mas insisto em ver
com os olhos dos sonhos

haverá novas horas
de um mesmo relógio
que à maneira dos esperançados
beijará o primeiro segundo
soletrando estrelas de um dia primeiro

e apesar das incontáveis picadas
da mordaz e histriônica colméia
reinventaremos o mel

 

Arritmia


sou o axioma das minhas incertezas:
a carne
que desperta o anjo
a alma
que engole o homem
 
sou o pecado da minha oração:
a maçã
que redime a serpente
a espada
que acaricia o ventre
 
sou a ficção do meu rio factual:
a lágrima
do orgasmo contido
o gozo
da lâmina afiada

(Serei eu o reflexo de um sonho disléxico?)

 

caçada

filha do silêncio
invado a  madrugada
no rastro da presa

insidiosa
consumo-lhe as horas

no agônico das trevas
rasgo-lhe o cheiro
e entro-lhe na carne

avassaladora
rompo-me sua aurora

 

vórtice

da poesia
criei espelho

rompi a cronologia
e mergulhei nas profundezas
de redemoinhos lispectorianos

emergi aguda:
espinho na carne do passado
fêmea ávida de futuro

 



 @




Novembro de 2005:

 

resiliente

enquanto estrelas viravam versos
e a lua
brincava de esconde-esconde
inventou vida

quando cúmulos lhe cercaram
perdeu-se no temporal
e da vida inventada
sobrou solidão

cortejou o sono eterno
e nas profundezas
esvaziou-se de si mesmo

quando nada mais havia
do vazio brotou lágrima

virou rio

 

modus vivendi

entre sábado e domingo
a vida escorre aquática

como massa com molho
molho o rosto com Diadorim
lavo a alma em Almodóvar
e mergulho idiomas
em sorvete de baunilha

domingo à noite
dreno as horas que escorreram
e volto a sentir o chão
equilibrando a semana
sobre as bordas do grand canyon


recriação

em fagulhas de segundos
recriou-se o jardim do éden:

mulher homem e serpente
driblam solidão
queimando no inferno de dante
fantasias da maçã do amor


Incandescência

a revolta
transforma néon em fogo
e o sangue volta a arder
nas veias do imperialismo europeu

as chamas
iluminam a velha hipocrisia:
queimam-se panos
que escondem a xenofobia
rasgam-se véus
da falsa democracia racial

do caos
uma nova ordem
grita para se instalar

(enquanto do lado de cá
fecham-se cortinas do iluminismo
e trava-se luta contra males medievais)


Lua cheia em dois atos

no sertão
a sede emudece a voz
e a lua ilumina a peste
espreitando o golpe final

na rua
a lua brilha matreira
em pupilas dilatadas
pela lâmina do punhal


réquien de mim

sou o avesso do  teu verso
 
a carne
que desperta o anjo
a alma
que engole o homem
 
sou teu segredo não contado
 
a maçã
que redime a serpente
a espada
que acaricia o ventre
 
sou teu sonho não sonhado
 
a lágrima
do orgasmo contido
o gozo
do amor inventado

 

em oração
 
ouvir a sinfonia
do cálice
que derrama alumbramento
em noites de espera:
-sonhar
 
fazer do vinho
gotas de suores
que escorrem pela carne
em gritos estrangulados:
-amar

e de joelhos
engolir a vida
líquida de absolvição


cíclica

escancarando portas
o amor arrombou-a

roubando-lhe a alma
deixou-a queimando
em nova inquisição

das cinzas recriou-se:
quebrou taças
e tingiu-se de vinho

hoje é correnteza
insinuando-se rubra
sob três mil sóis
sob três mil luas
em nova travessia


eutanásia

o corpo
-poema em desconstrução-
lambe melancolicamente
as páginas de um rimbaud

a alma
-poesia em decantação-
aspira sofregamente
a fumaça do free azul

(e a vida vai escorrendo
ao som de blues da ampulheta)


Pausa
 
e lá se foi a poesia!
enrubescida
perdeu-se entre a boca
e a mudez cigana
 
sobraram palavras solteiras
na melódica espera
em dó menor
da chuva de estrelas


em novo mergulho
 
dar as costas
a antigas fotografias

vestir-se de novos acenos

cobrir a face da reaparição
e perder-se em outros oceanos
- naufragando em novas emoções


nos porões da vida
 
abrem-se cavernas
na alma
 
inscrições rupestres
no corpo
 
e do outro lado da cama
recolhe-se o sêmen
em cavidades subterrâneas de desamor


a rosa

entre montes arfantes
impotente
desenha-se no destino:

a língua
traçará sobre o veludo
o caminho da perdição

a boca
ignorará o perfume
mordiscando a sedução

as mãos
abraçarão o corpo
desfolhando a perfeição

sobre a areia
em pétalas vermelhas
esperará
até que o mar
mansamente a embale
como um sonho de verão


 



 @




Outubro de 2005:

 

Espelhos

de um lado:
a boca
-sacra-
abrindo-se em agudo carnal

de outro lado:
as pernas
-prostitutas-
esperando em noventa graus

de cima:
o corpo
-pagão- 
irrompendo desejos ciganos

de frente:
os olhos
-diabéticos-
sonhando lágrimas de mel

(quatro reflexos 
numa taça de vinho:
hora de beber o amor)

 

Mimética

sou fogo
que lambe a ferida
da canção de ninar
 
sou lâmina
que fecha o agudo
da nota dissonante
 
sou fonte
que cospe adrenalina
na cara da morte
 
sou reverso dos teus versos
sou verso do teu reverso

 

ecos do silêncio

solos de guitarra flamenca
morrem no ar
sementes regadas a rum
germinam no solo

do lado de cá do espelho
a bela adormecida
embebeda-se de sonhos
e dedilha alucinadamente
o fio da navalha

 

Incontrolável

equilibrava
em sólida arquitetura
de letras vazias
 
de repente
versos invasores
roçam línguas nas estruturas
 
a vida
volta a se inscrever
no Soneto da Fidelidade

 

clandestino

um dia
rompeu meus véus

numa tirania sem idade
violentou as águas
depois manso
dominou meu espanto
e escorreu dentro de mim

em transe
desatei meus nós
e enlaçando a miragem
legitimei sua posse

(reescrevi a história
com substâncias e substantivos
de infinito em prazo vencido)

hoje jaz
sem epitáfio
boiando em lençóis estáticos
das histórias de Scherazade

 

em nome da lua cheia

I

invadida
pelo brilho vadio
de lua no cio
gozei poesia

II

a poça na cama
e a lua com sede
bebendo meu olhar

III

nem toda lua é cheia
nem toda cheia transborda

uma borda delírios
na sede do retirante

outra tece promessas
nas bordas do meu desejo

IV

nada sei de putaqueospariu
nem de necas de pitiborobas
menos ainda de poesia

sei de lua
que na estação da cheia
faz loba-narcisa
naufragar em poça de rua

 

Passado

Quando ia tatuar o amor
com o vermelho
do meu cio
a vida deu-me uma chave de pernas
(e o tempo da flor virou pretérito imperfeito)

Presente

o cheiro do sonho
invade minha pele
transformando-me em blues poéticos:

entre as coxas
escorre o som do meu desejo

Futuro

de lábios entreabertos
aguardo
com beijo salgado de espera

entre pernas fechadas
guardo
beijos líquidos de desejo

Futuro II

o encontro das bocas fará
novos blues
no salgado da espera
e o desejo entre-pernas
sangrará
em nova aurora boreal

Beija-flor

costurando linhas
escondi-me em entrelinhas
pintei de cinza o verbo amar

conjugando afagos e carinhos
meu amar virou sujeito
recriei velhos caminhos

renasci:
poesia sem poeta
mas beija-flor
verbalizando néctar

Liga-desliga

Ligadona em 220
virei morro iluminado
escrachei minhas intenções
espalhada em teu capacho

Mas tropeçastes em tantos fios
que o plug da minha tomada
explodiu tua arquitetura
clareando minha escuridão.

Escondidas no armário
vi tuas mentiras indecentes
penduradas nos cabides
de tua língua de serpente.

Num katrina descontrolado
vi o quente virar assado
e pra não morrer de desamor
dei um chute em teu pecado

pra bem longe do meu equador

Desenlace 

Olharam-se. Entre eles, as lágrimas guardadas, as mágoas escondidas, a dor disfarçada. E o adeus. Olhos presos numa corrente de elos infinitos. Adivinhando a saudade que se esconderia em cada canto da alma, em cada batida do coração, em cada pedaço de vida que lhes restasse. Ele se virou. Rompeu-se a corrente. Silenciosamente fechou a porta e o fim desenhou-se à frente dela. Abraçou o corpo. Garganta fechada, estômago contraído em ânsias de vômito. Olhou em volta do quarto, escutando a mudez do armário, das gavetas, dos travesseiros. Girando sobre si mesma iniciou uma dança lenta. E um riso baixo. Rodopiou. Gargalhou. Mais alto. Mais rápido. Mais alto. Mais rápido. Até que nada mais havia além do eco da sua loucura. E o corpo caído sobre a cama. E o sangue sob as unhas. E os caminhos abertos na pele. E o silêncio no corpo dela.  



 Euza




Setembro de 2005:

abortagem poética

tem um poema que
mora dentro de mim:
tem cara de leminski
e jeito de drummond
 
(se estou triste
ele chove
se apaixonada
vira noite de sol
se indignada
o avesso da pele)
 
com medo de plágio
mexo invento remexo
e (pre)paro o parto

em plena afasia
verso vira asfalto

mato a poesia

 

Insurgência

sem aviso
a magnitude da paixão
ignora o álbum de fotografias
e arromba o mandamento

olhos brilham estrelas
- caem roupas e vergonha
mãos rompem trevas
- arrepiam pelos e virtudes
bocas devassam paraíso
- amolecem pernas e juízo

(degustando pecado
adão e eva ressurgem
quebrando as tábuas da lei)

 

ciclicidade

pétalas úmidas de orvalho
gestando sono
(cores em hibernação)

sementes ávidas de paixão
germinando esperas
(desejos em gestação)

luxúria de vermelhos
parindo néctares
(cálices em afloração)

tempestade de verão
inundando a terra
(vidas em explosão)

 

Equação

Ele a amava, mas não a alcançava.
Ela deitava-se como se o sol lhe sorrisse; amava como se as estrelas lhe abraçassem; gozava como se as águas lhe tragassem; sonhava como se a poesia lhe invadisse; acordava como se o infinito lhe preenchesse.
Um dia ele decifrou a incógnita: ela vivia.

 

"cai o pano"

tua palavra
(trans)bordando poesia
germinou fértil
na alma em reticências
inclemente
teceu texto entre vírgulas
coseu sonhos sem acentos
recriou adjetivas fantasias
até que descoberta
caiu substantiva
nas linhas pontilhadas
de vocativa desilusão
agora jaz subordinada
entre metáforas escorregadias
pontuando na poesia
sinais de tua encenação

 

 



 Loba




Agosto de 2005:

para entrar no jogo
 
se  o olhar é corroído
de cúmplices desejos
-ela se abre
 
com  um afago na alma
de mãos aluaradas
-ele entra
 
se  a boca é sedenta
de beijos lambidos
-ela se entrega
 
com  versos (versus) versos
de poesia no corpo
-ele ganha
 
se prólogo e epílogo
em  corpo e alma se unem
-ela fica
-ele fica
-eles ficam

 



 Loba




Julho de 2005:

 

Súplica

amor, amor meu
estopim da minha loucura
(por inteiro)
absorva-me na nudez
para que
penetrando em minha pele
teu fogo
apague a minha lucidez
tua boca
cuspa a minha sensatez
teu corpo
transpire a minha rigidez

amor, amor meu
absolva-me
derrame sobre mim a tua fluidez

 

Acorrentados

Ligados por gigabites
elos insabíveis
criaram a comunhão
Teceu-se a corrente
prenderam-se os amantes
No silêncio cristalizado
deram-se em corpos imaginados
flutuando nos mistérios
dos desejos reais

Em caminhos de fogo
matam tardes
criam manhãs
No giro de telas e letras
espoucam sóis
despetalam girassóis
realimentam paixão

E na solidão da cama
em lembranças encadeadas
acorrentam dias inventados
em elos de esperança recriada

 



 Loba




Junho de 2005:

 

Dança com loba

Dançar com loba
é desnudar-se
em prosa, verso e ritmo
e despetalar-se.
É saber perder-se
nos desejos oblíquos
de suas bocas famintas
e línguas vermelhas.
É saber encontrar-se
em uivos selvagens
de palavras mordidas
e amor sussurrado.
É transmutar-se em calor
na pele mordiscada
e com dentes na seda
desvirtuar a flor.
Enfim
dançar com loba
é entregar-se ao pecado
rasgado e regado
por música bem tocada
em corpos suados.

 

Convite

Venha
Traga contigo as cores que o outono apagou
Sacie em mim a sede das flores
E entregue teus desejos ao meu querer

Deite-se
Desenhe teu corpo nos lençóis solitários
Amalgame-se a mim em pele e sentidos
E faça-se meu até o sono de ti me roubar

Dá-me
A beber na taça do teus mais intimos sonhos
Leve-me contigo onde os meus se perderam
E por esta noite ressuscite-os em mim

E quando o dia acordar
Em silêncio
Devagar
Saia.

Não espere a cigarra cantar

 

Prece ao Amor

(texto inspirado na prece de São Francisco de Assis e costurado com a poesia de Vinícius de Moraes, Luís Vaz de Camões e Chico Buarque de Holanda)

Oh Amor
Senhor de mim guardião de minh’alma
Faze-me instrumento da tua vontade
Queime-me com o fogo que não causa dor
Transforme-me em promessas e esperanças
Abra-me todos os caminhos que me levam a ti

Oh Amor
Senhor de mim castelão do meu corpo
Faze-me instrumento do teu prazer
Corte-me com todas as palavras feitas para sangrar
Habite-me com a alegria de um pássaro em noite de verão
Costure-se a mim como chama eterna enquanto dura

Oh Amor
Senhor de mim em sonhos e realidade
Faze-me instrumento do teu querer
Que minhas palavras sejam segredos lindos e indecentes
Que meus braços sejam arquitetos do teu templo
Que minha alma te adore ainda que pelo avesso

Enfim, Amor
que chegues de repente não mais que de repente
e eternamente seja ferida que dói e não se sente

 

"As sem-razões do amor"
(resposta a Drummond)

Poeta, você foi brilhante ao se declarar amante do amor. Ainda que eu tenha dificuldades para te ver amando assim (e na sua mineirice você sabe porquê tenho) não poderia juntar tanta poesia de forma mais bonita do que o fez.
Mas poeta, eu não posso concordar com estes dois versos: “Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim.” Não, poeta. É justamente porque amo demais a mim é que sou capaz de amar sem-razões. É por me saber amante de mim mesma é que sou capaz de dar-me a quem amo de uma forma absoluta. E dando-me, sou capaz de aceitá-lo e respeitá-lo no seu amor singular. Talvez eu seja uma amante egocêntrica, mas não consigo me ver amando o outro mais do que amo a mim. Sabe por que, poeta? Porque eu me esvaziaria se não tivesse no meu próprio amor a fonte de energia que supre o meu amor pelo outro. Esta energia que me faz ser parceira, ser companheira, ser igual e ser plural.
Olha, eu verdadeiramente acho lindo este amor abnegado, este amor que nada exige a não ser sua própria existência. E até acredito que é possível vivê-lo. Mas eu quero mais do amor, poeta. Eu o quero se alimentando do amor do outro. Eu o quero espalhando-se no outro e provocando nele a erupção de um vulcão que explodirá em mim, realimentando o meu amor. Então, poeta, o amor para mim é troca. É feliz e forte ao se conjugar em outro amor.
Mas termino em comunhão contigo: o meu amor é primo da morte e da morte vencedor!


Amor em pauta
(utopia)


Plagiei Cazuza e inventei o nosso amor.  Das rosas roubadas sobrou um coração onde cultivei o sonho de me tornar poesia. Juntei-me ao poema e o poeta fez uma rima. Mas viramos palavras distintas. Ficou o sonho de um dia as mãos colarem-se aos corações. Então seremos laços transformados em abraço. E o nó se perpetuará nas Coisas do coração.

 

Gestos e Atitudes

Nasci amor.
Cedo ainda, descobri o desamor. O mundo era dividido em sol e sombra. E a sombra sempre crescia mais que o sol. Mas eu era menina e tudo me parecia grande demais. Até a sombra. Então eu me consolava:
Nasci amor.
Cresci nas tranças, no corpo e na alma. E a sombra foi crescendo ainda mais. Quando o sol brilhava, ela prepotente o apagava. E minha alma chorava. O choro era traduzido em gritos e palavras. Indignadas. Baixinho eu continuava me dizendo:
Nasci amor.
Cresci nas minhas escolhas . Via meus filhos na luz do sol e muitos outros filhos na sombra. Via chegadas e partidas. Via branco e preto virando cinza. Via vermelho escorrendo. Eu ainda indignada. E paralisada. Achava que não podia fazer nada. Teimosa, me repetia:
Nasci amor.
Um dia este amor rebelou-se. Gritou-me sua vontade de sair das palavras e virar atos. Cresceu. Ultrapassou os meus limites. E enfrentou a sombra. Descobri que o amor está muito além do abstrato. Amor é gesto concreto. É atitude.
Cresci no amor.



 Loba




Maio de 2005:

vida em cenas

falas e atos
invadem a manhã:
abrem-se as cortinas

olhos de espanto
arregalam-se nos gestos:
úmidos

perguntas penduram-se
entre um ato e outro:
mudas

vidas arrombadas
vermelhos na cama:
dor

silêncio de fel
 atores fora de cena:
fecham-se as cortinas

(nos bastidores remenda-se a dignidade rasgada)
 

orquídea

ele quis ser a estufa onde ela floresceria desejo. deu-lhe o tronco, o adubo e a seiva. e cercou-a. ela desabrochou carnívora. entre suas pétalas ele viu-se esvaindo em sêmen e sangue.

 

 

Clara das águas


Era onde se sentia em casa: na água. Queria mesmo era ter nascido um bicho qualquer, mas que fosse bicho das profundezas oceânicas. Que pudesse ouvir os segredos do mar e como uma sereia encantar suas ondas. E deixar-se ser possuída por sua fúria. A ele se daria inteira. E nele transformar-se-ia em amor.

 

Dia de mãe

Havia no ar um cheiro de despedida. Vozes baixas, passos leves. O escuro crescendo nos olhos dos meninos.
Num vôo solitário ela se foi. Deixou na parede do quarto uma foto. E quatro filhos sem mãe.
Durante anos eles acreditaram que ela virara anjo. E que navegava na lua iluminando o quarto deles.
Os meninos cresceram. Mudaram. A lua não. Nem a imagem do anjo que brilha nas nuvens.

 

Pedra além de Drummond

No caminho das nuvens rola uma mãe. Cristal transparente sem arestas. Onde dormem sonhos de navegar na lua. Onde comem reis e pedem mendigos.
Rola uma pedra no caminho do céu. Guarda o verde ferido pelos filhos. Guarda azuis manchando-se de vermelhos. Guarda pedras sobre pedras.
No sono sem sonhos rola a mãe. Pedra que chora, que arde, que seca.
Rola a pedra no caminho do nada. Mãe que grita: até quando?

 



 Loba




Abril de 2005:

 

bifurcação

vidas estaticamente entrelaçadas:
indiferença matutina
ofensas vespertinas
leitos separados

(caminho milenar)

vidas febrilmente separadas:
beijos angustiados
amor desesperado
leito de casal

(caminho semanal)

entre o tudo e o nada
roda a cadeira
no fio da navalha
 

 
meio a meio
 
no desejo do teu corpo
derreto-me:
meio-seiva
meio-sangue
meio-rio

escorrerei entre teus dedos?
ou tua boca me sorverá?

 

carnívora

sobre o canteiro escuro dos teus pelos
deito saliva
rego tua haste

como se estivesse te enfeitando
escalo-te
abro-me flor

em vertigens coloridas
multiplico espasmos
mutilo orgasmos

inundando teu jardim
devoro-te
e despetalo-me

 

descaso

aquele sábado nasceu molhado:
sentada sobre minha ausência
transformei tua tristeza em sal

hoje o sábado acordou seco
de lágrimas e de ilusões:
nunca houve pelo que chorar 

 

Filho das águas

Os pés descalços levantam a areia distraidamente. Roupas grudadas ao corpo ela caminha contra o vento. Pensamentos soltos, sorriso nos lábios desafiando a vida. A vontade de voar se perdendo no peso da barriga. Mais um dia escorrendo lentamente na espera infinita.
Ele surgira do mar. Como Netuno – belo e forte atravessando as espumas brancas. Sentada na areia ela o viu aproximar-se. Estranhamente não se mexeu. Apenas seu coração iniciou uma dança que crescia em ritmo e som.
Ele sentou-se ao seu lado. Mudos olharam-se. Olhos escuros passearam pelo rosto queimado de mulher-menina. No rosto dela desenhou-se o rubor do fogo que crescia por dentro. Lentamente as bocas se encontraram.
Nua sobre a areia molhada perdeu-se olhando as nuvens correndo pelo céu azul. Entre as pernas, o prazer feito brasas que vão perdendo o fogo. Lentamente. Deixando apenas a sensação de calor espalhando-se pelo corpo. E a semente plantada pela magia.
Seus pés fazem sozinhos o caminho de casa. Casa que há nove meses espera o filho das águas. Casa que acorda a cada manhã à espera de uma nova magia.



desejo

para a alma,
poesia:
cumplicidade (além)lua

para a carne,
resta a fome:
heresia nos sentidos

para nós:
a flor
o caule
a seiva

beija-flor em tarde de outono 

 

 



 Loba




Março de 2005:

 

Go back 

cores...
lentas
deslizam-se

vermelho machando azuis
brancos contemplando a mistura
 
óleo sangrando vida
na promessa de flores outonais

 

record(arte)

do querer:
verdade ou hipocrisia?

haverá arte
na aquarela
pintada da ausência
de cor
do não te ter?

 

do ser e do estar

para ser-te
busco-me
em marços e setembros
em invernos e verões
(não apenas em começos de dezembros)

para ser-me
procure-se
no riso que deslizou
na lágrima que cicatrizou
(não apenas no meu reflexo em teu espelho)

para estarmos
o que mais será preciso
além de jogarmos paciência
com as cartas de uma história vencida?

 

Mulher em preto e branco

Pela manhã, menina ainda ela carrega nas costas um quarto do mundo. Seus olhos brilham estrelas e ela vê sorrisos na vida.

Ao meio-dia, jovem e forte, apara os golpes calada. O mundo já está pela metade, mas ela ainda o sustenta. A vida mistura lágrimas com gargalhadas.

À tarde,  seu corpo já se verga. Seus gritos já não têm força.  Ninguém a escuta. O mundo já lhe pesa em três-quartos.  A vida escondeu o sorriso.

À noite, entrega-se. Os golpes  lhe chegam em gemidos conformados.  O mundo tirou-lhe as esperanças e o céu fez-se escuro. Sonha a vida como descanso final.

 

 Virótica

Encasulada
olho-me por dentro:
vírus mastigando rebeldia
vírus engolindo tesão
virus florescendo saudade

E o anti-vírus
perdido na minha esperança

 


Um caso de amor impossível

Ele, de brilho ofuscante. Eu, prateando o caminho. Descobrimo-nos embora distantes. Nossos olhos sorriram sem se olharem. Nossas bocas colaram-se sem se tocarem. Nossos corpos arderam sem se conhecerem. Sinos badalaram anunciando o amor em mim.  Entreguei-me. Entregou-se ele. Falamo-nos em todas as linguagens. Em todas elas éramos unos. Apenas uma era desconhecida. E era a mais urgente. E a única impossível. Acordamos. Do sonho ficou o som das estrelas. E o vazio entre o sol e a lua.

 



 Loba




Agosto de 2004:

 

Laços em nós
 

Ao perder-me em ti entreguei-te
meus desejos indecentes
os sabores acri-doces dos meus topázios reluzentes
Ao perder-te em mim entregaste-me
tuas fantasias enclausuradas
nos bêbados desvarios de falsa pedra marchetada

Ao nos perdermos
em nós
construímos
uma nova história

Ao perder-me de ti
perdi pedaços de mim
porções servidas nos desvarios da tua luxúria
Ao perder-te de mim
entraste em transparência
perdeste o reflexo da minha indecente loucura

Ao nos perdermos
de nós
destruímos
uma velha história

E o adeus revelou o faiscar da minha vida em ebulição

 


Em expectativa
 

A madrugada fez-me grávida:
amor germinado da semente gritada ao vento.
Anseio-te chegando:
Corpo tenso, teus olhos percorrem minha nudez
Teu desejo em mágica insensatez desfaz as minhas teias
Anseio-te preenchendo-me:
mãos e boca violando cumes e grutas.
Adivinho-te insidiando-se pelo meu corpo,
frente e verso violados nas tuas vontades.
Na devassa do teu desejo pagão, animalizo-me
Minhas mãos
- sôfregas mãos famintas -
celebram o contorno do teu corpo.
Unhas arranham a tua geografia.
Lábios tateando teu pico fremente, provocam
a lava escaldante.
A boca soletra-te,
absorvendo sedenta tua erupção.

Prenha das promessas de amor, gesto
novos sonhos
novos desejos
novas sementes.
O corpo, vencedor eterno
desta luta torta e vã,
em expectativa aguarda em ti  ancorar-se.
Estou pronta:
Venha a persona do amor!

 

Espera melódica
 

À noite
o corpo em espera
faz o corte
A carne
sulcada pela ausência
rompe-se vermelha
latejante
O sangue
borbulha fremente
das veias rompidas
pela saudade

Pela manhã
o corpo sem memória
sutura a espera
cobre de esperança a ferida
lambe o sangue agora verde
Abre-se em pauta
cria notas variantes
inventa nova melodia
e prepara-se para a sinfonia
que jamais terminará.

 

De calos e falos


Enquanto me calo
Com teu falo
Em minha boca
Meu desejo faminto
Corrompe tuas vontades
Tuas mãos
Gritam pelo meu corpo
Transformando silêncio
Em gemidos
Teu líquido quente
Rompe meu grito
Crio senhas
Ditadas pelo teu falo
A boca na boca
A vida no líquido
Que escorre encantado
Adormecemos
Boca sexo e falo
Renascemos carinho
Calados
Irremediavelmente atados

 


(re)Entrega
 

Cúmplices no desejo
entregamos à noite as nossas palavras
Dos sentidos aguçados
brota a fagulha
de uma fogueira prestes a crepitar
Em movimentos lentos
tua boca
desnuda meus negros véus
enquanto o brilho líquido
dos olhos
sentencia-me a morrer no teu abraço
De suas mãos
nascem carícias
que circulam minha pele
criando focos
de vontades pagãs
À deriva
entrego-me á dureza
que penetra o âmago faminto
Os sons se fundem
em gemidos e gritos
emoldurando a entrega da nossa lucidez
Do teu desejo brota em mim
cascata líquida e quente
tatuando em fogo no meu corpo
a origem da vida
No círculo amante dos teus braços
morro e renasço
tua mulher.

 



 Loba




Julho de 2004:


Invasão do querer
 

há em mim o vazio da falta de amar
não há tristeza, sequer alegria
vivo o estado da letargia
que antecede a perda do pensar
não quero apenas ser amada
quero amar
ser misturada
aprofundada
desvirtuada
quero beijo como calor de vinho
invadindo os meus receios
o viver secreto das minhas fantasias
escorrendo líquido entre o pulsar dos meus seios
quero estar prestes a ser beijada
nas mais intimas das minhas cavernas
transformar gotas em enchentes
ter a vida explodindo entre as minhas pernas
morder a realidade com dentes dilacerantes
entorpecer os sentimentos e aguçar os sentidos
dar vida ao meu topázio reluzente
transformar a pedra em líquido escaldante

quero zumbi
ou vampiro
ou vida inteligente
invadindo os recantos mais íntimos do meu corpo expectante

 

entre parênteses

já não quero-te sem ponto final
desejo-te entre parênteses
em minúsculas e sem grandes intenções
perdi teu perfume
fragmentei tua cor

descobri-te:
és flor aberta no vácuo de um jardim sorridente

a entrega?
dormirá ao crepúsculo da espera

se houver eclipse
se tua lua deixar de brilhar frio
e sorrir calor
se souberes dar-te

ao vento
ao tempo
ao amor

cobrirei meu corpo de pétalas
deixarei de ser-te apenas beija-flor

 


Sem ponto final


Quero-te sem ponto final.
Abra parênteses
crie dois pontos.
Desejo-te pauta
multiplicando
atravessando o sinal.
Sem interrogação.
Desejo-te sem linha
sem fechar parênteses
apenas vírgula
para descansar no final.

 

Palavra em fúria
 

uma palavra
apenas uma caída
dentro da intensa ansiedade
e faz-se a descoberta:
amor não deita em
águas calmas, nem prende-se
em armaduras
inquieto, malicioso
não suporta calmaria
destrói diques, arrasta
a alma pela rua
e absurdamente
entende-se ser impossível
fugir da sua fúria

 

Mutações
 

Deixei de ser eu
sou amor
sem par
na ânsia de não ser

Deixei de ser uma
sou múltipla
ímpar no amor
carne deserta
ávida de sabor

Deixei de ser mente
sou libido
reinvento sexo
na vertigem da calmaria

Deixei de ser corpo
sou matéria sem nexo
vivo desejo
de fecundar-me na tua boca
e remodelar-me no teu beijo

 


Palavra fragmentada
 

na busca incessante de mim mesma
encontro nas palavras o meu espelho
pedaços de mim devolvidos
em imagens que nem sempre reconheço
mosaico de letras que
revolve o mais intimo da minha alma
desfigura as minhas certezas
espreita os mais silentes dos meus medos
revela minhas inaceitáveis solidões
e quando saí
traduz atordoante espanto
renasço desvairadamente flores
absurdas e silenciosas
que misturam-se em pétalas diferentes
produzindo impudicamente
outras ávidas interrogações
novas tramas de letras formam
o círculo onde debato-me 
agora incerta se deveras conheço
minhas próprias definições
enfim reconheço
sou palavra fragmentada
em diferentes estágios de evolução

 


História qualquer
 

Minha alma foi teu consolo
onde derramaste tuas lágrimas
procuraste tua segurança
clareaste teus escuros
Meu corpo foi teu país
onde hasteaste tua bandeira
traçaste tuas fronteiras
e encontraste tua luz
Entreguei-te minha esperança mapeada
em cada linha do meu corpo
em cada nuance da minha alma
Não traduziste minhas marcas
não refletiste nos meus verdes
não emergiste nos meus sonhos
A luz se apagou
meu corpo se fechou
minha alma se rendeu

Dei-te adeus,
só meu sonho não percebeu

 

Viagem do prazer


Viaja pela minha imaginação
o encontro de nossas bocas
Lábios quentes e errantes
provocando minhas loucuras e fúrias
Língua sôfrega e delirante
escalando as montanhas da minha luxúria

Navega em mim
o desejo da tua boca
a ânsia de perder-me em teus lábios
deixar teu fogo decifrar meus sentidos
E na simbiose dos corpos
desmancharmos em úmidos fluídos

Trafega pelo meu corpo
o desejo da tua boca
beijando meus contornos e penumbras
umedecendo meus meandros barrocos
descobrindo meus ângulos e desvãos
criando na pele tépida novo arco de tensão

Mora em minha ansiedade
a espera por tua boca
Sonho infatigada o que ainda não tenho de ti:
a viagem da tua boca em mim

 

Entre hoje e amanhã
 

Vida, oh vida minha,
deixe que hoje eu me divorcie de ti.
Meu coração caiu
Tropeçou nas tramas da mentira
pelas teias da omissão, escorregou
Despencou pelos degraus da desilusão
e no mar da desesperança
aos pedaços naufragou

No peito oco,
apenas o amor:
bobo, teimoso e torto.

Amanhã, minha vida,
colocarei a capa da alegria
limparei as marcas do pranto seco
e em busca dos meus pedaços
navegarei
Ao encontrá-los,
um por um eu os costurarei
Virarei-me pelo avesso,
mas prometo:
Renascerei

Mas hoje, vida,
deixe que eu me aquiete
Deixe-me encolhida no útero da tristeza
E no branco do nada
- hoje, apenas por hoje -
de viver descansarei

 

Amor de perdição
 

Tenho-te na cama de corpo largado
entregue ao meu cio de animal raivoso.
Faço do teu corpo a minha redenção:
arranho-te o peito
-  viras gemido
mordo-te os mamilos
- viras arrepio
puxo-te os cabelos
- tua boca recebe-me.
Tenho-te:
és meu!

Olho-te na tua entrega:
teu cheiro de animal carente
umedece a minha fúria insana
Minhas durezas profanas amaciam-se
Absolves-me com teu bendito prazer e enterneço-me
Deito-me ao teu lado
Já liberta da minha amargura, abro-me
Carinhosamente, deito tua cabeça entre minhas coxas
curvo meu corpo à espera da tua boca
Entrego-me:
sou tua!



 Loba


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 Passageira de mim



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